quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Entrevista com Wayne Grudem - Vida Nova
Grudem: Antes de qualquer coisa, vejo isso tudo como o favor e a bênção do Senhor sobre o ensino de sua Palavra. Meu livro, Teologia Sistemática, tem forte fundamento nas próprias palavras da Bíblia. Portanto, quando alguém o lê, encontra muitos versículos bíblicos que citei ao longo do livro. Creio que o fato de ter incluído a própria Palavra de Deus confere à didática do livro muito mais poder e eficácia para tocar o coração e a mente das pessoas.
Um segundo motivo é por eu ter escrito o livro de maneira que pudesse ser entendido por cristãos comuns, não apenas por acadêmicos em seminários e universidades, pessoas que possuem instrução mais avançada. Tentei empregar uma linguagem acessível por todo o livro e, nas situações em que utilizei termos teológicos especializados, sempre busquei antes explicá-los ao leitor.
O terceiro motivo é por eu ter tentado escrever o livro de modo a incluir aplicações práticas para a vida cotidiana. Assim, espero que a fé das pessoas, sua vida de oração, obediência e amor a Deus sejam aprofundadas pela leitura dessa obra.
Teologia Brasileira: Qual é sua avaliação a respeito da contribuição latino-americana à teologia nos últimos vinte anos?
Grudem: Creio que os cristãos no restante do mundo têm sido encorajados e desafiados pela grande fé demonstrada entre os cristãos da América Latina. Acredito também que os cristãos de outras partes do mundo têm sido desafiados pelo notável crescimento da igreja latino-americana, algo que reflete seu profundo amor pelos incrédulos e sua confiança no poder de Deus. Igrejas em diversas regiões da América Latina têm crescido em uma proporção que ultrapassa de longe qualquer fenômeno que esteja ocorrendo na América do Norte ou na Europa.
Creio que a igreja na América Latina tem também servido de estímulo para que outros cristãos ao redor do mundo dediquem mais atenção à tentativa de encontrar soluções de longo prazo às necessidades dos pobres, algo em que estou começando a empenhar-me.
Sinto dizer que não sei ler português nem espanhol; por isso, não posso ler a literatura acadêmica teológica produzida nessas duas línguas.
Teologia Brasileira: O Brasil está sendo cada vez mais exposto ao movimento da igreja emergente.1 Qual é sua opinião sobre este fenômeno? Quais pontos positivos e negativos enxerga nessa nova forma eclesiástica?
Grudem: Sempre aprecio quando igrejas descobrem uma nova ênfase que possa ser atribuída à celebração no culto e ao uso mais difundido da arte no trabalho da igreja. Também tenho apreço por qualquer tentativa de compreender como podemos alcançar com o Evangelho a geração atual de jovens não crentes. Vários segmentos do movimento de igrejas “emergentes” e “em emergência” têm desafiado a igreja dessa maneira.
Todavia, fico profundamente preocupado com a perda de entendimento doutrinário, bem como com a postura de minimizar a importância da doutrina e da fidelidade à Palavra de Deus. Essa é a essência da minha Teologia Sistemática – compreender e, então, permanecer fiel aos ensinamentos da Palavra de Deus.
Se você ler os livros de 1 e 2Timóteo e Tito, por exemplo, ou 2Pedro e Judas, perceberá rapidamente que os autores do Novo Testamento preocupam-se profundamente com o risco de que suas jovens igrejas se desviem, aceitando e tolerando falsos ensinamentos, que afastarão as pessoas de Deus e da fidelidade a ele. Em último caso, se uma igreja se desviar muito em sua compreensão doutrinária e permitir que falsos mestres tomem conta de seus púlpitos, o favor e a bênção de Deus serão retirados dessa igreja.
Às vezes, fazemos uma distinção entre as igrejas “emergentes” [emergent churches], que se tornaram bem mais liberais em sua doutrina, e as igrejas “em emergência” [emerging churches], que às vezes são muito mais conservadoras e fiéis à Palavra de Deus (embora aqui também encontremos variações).
O ponto principal é preservar a importância de sermos fiéis a toda a Palavra de Deus, em especial no que diz respeito às pessoas autorizadas a ensinar nas igrejas e escrever para editoras cristãs.
Teologia Brasileira: As ideias propostas pelo “teísmo aberto” têm suscitado diversos debates aqui no Brasil. Alguns teólogos de igrejas tradicionais e pentecostais têm sido favoráveis à adoção desse movimento teológico. Essa tendência é alimentada por tragédias no cenário internacional, tal como o aumento do terrorismo, as recentes tsunamis e o acidente da Air France. Como o senhor enxerga o “teísmo aberto”? Esta teologia poderia de algum modo ser útil para as igrejas ou seria ela apenas mais uma teologia que precisa ser enfrentada e refutada?
Grudem: Creio que o “teísmo aberto” é um ensino muito perigoso. Existem mais de 2 mil passagens na Bíblia mostrando que Deus conhece o que os seres humanos farão no futuro [Uma lista de 2.353 profecias desse tipo foi compilada por Steven C. Roy, que a menciona em seu livro How Much Does God Foreknow? (Downers Grove: IVP, 2006). Essa lista está disponível para download em http://www.ivpress.com/title/exc/2759-lists.pdf]. O “teísmo aberto” contradiz a força que todos esses versículos possuem. Nega ainda a doutrina da onisciência divina, a ideia de que Deus conhece todas as coisas que aconteceram e acontecerão, e até mesmo todas as coisas que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram!
Os defensores do “teísmo aberto” são obrigados a redefinir “onisciência” de maneira especial, de modo que signifique apenas que Deus conhece tudo o que é possível conhecer; logo em seguida, dizem que não é possível conhecer o futuro. Ao fazerem isso, eles impõem seu limitado conhecimento humano acerca do que é “possível” conhecer ao infinito caráter de Deus, o que é um erro. Além disso, retiram a força de um número avassalador de versículos bíblicos.
O problema de negar que Deus conhece nossas escolhas futuras é que essa atitude reduz drasticamente nossa capacidade de confiar em Deus. Como saberemos se o direcionamento que Deus nos dá é sábio, quando Ele mesmo pode não saber quais eventos futuros nos sobrevirão? Como poderemos confiar que ele nos conduzirá para um futuro que Ele próprio nem conhece?
Em Isaías 45.21 e Isaías 46.9,10, Deus se diferencia dos falsos deuses das religiões pagãs, dizendo ser o único que consegue saber o futuro. É assim que Ele mostra ser o único Deus verdadeiro. E é por isso que suas profecias sempre se cumprem. Os teístas abertos são obrigados a transformar as profecias de Deus em meros palpites sobre o que está para acontecer ou, então, em exceções ao ensinamento deles. Porém, não é essa visão de Deus que a Bíblia ensina.
Um livro recente muito útil sobre esse assunto é God’s Lesser Glory: the diminished God of Open Theism (Crossway, 2000), de Bruce Ware.2 Ver também um estudo bem minucioso feito por Steven C. Roy, How Much Does God Foreknow? (IVP, 2006).
Teologia Brasileira: Uma das maiores queixas contra a teologia sistemática é o fato de ela ser apenas de uma reflexão teórica sem nenhum atrativo prático para a aplicação no dia a dia. Qual é sua reação a esse tipo de comentário? Como a teologia sistemática contribui para a vida diária dos cristãos contemporâneos?
Grudem: Conforme expliquei acima, acredito que um dos motivos que levaram os cristãos a reagirem tão positivamente à minha Teologia Sistemática foi o fato de ela conter, no final de cada capítulo, questões para aplicação prática.
Certa vez, eu estava pensando sobre os livros mais densos do Novo Testamento, doutrinariamente falando, tal como Romanos, Efésios e Hebreus. Será que existe alguma aplicação prática nesses livros? É claro que sim! Neles existe muita aplicação! Depois, pensei comigo mesmo: se o Novo Testamento nunca ensina teologia sem aplicação, por que nós deveríamos ensinar? Será que não devemos também incluir aplicação para a vida, sempre que ensinarmos teologia sistemática? Foi isso que me levou a incluir na Teologia Sistemática essa ênfase na aplicação prática.
Teologia Brasileira: Qual é sua opinião sobre as propostas apologéticas usadas por evidencialistas e pressuposicionalistas quanto às “evidências a favor da existência” de Deus?
Grudem: Se eu tivesse de escolher um dos lados do debate, ficaria do lado dos pressuposicionalistas. Eles nos recordam que, ao falarmos com um não crente, todos os fatos do universo são, em última análise, compreendidos de maneiras diferentes pelo não crente e por nós, cristãos. Isso acontece porque colocamos todos os fatos no contexto do propósito geral de Deus e de seu controle total do universo. Cada fato tem uma função, seja para levar adiante o reino de Deus e aumentar sua glória, seja para outros propósitos que não implicam glória a Deus. Portanto, pensando dessa maneira, creio que devemos lembrar-nos de que não existem fatos “neutros”, quando conversamos com descrentes. Eles enxergam cada fato no contexto de sua cosmovisão, que é contrária à cosmovisão bíblica.
Por outro lado, sou a favor de todos os tipos de evidências e argumentos, desde que ajudem a levar não crentes mais perto de depositar sua confiança em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Recordo-me de uma vez em que estava conversando com uma mulher sentada ao meu lado no avião, que se dizia ateia. Falava-lhe sobre minha crença em Deus e confiança em Jesus Cristo, mas ela era uma ateia convicta. Então, quando o avião aterrissou, recebi uma mensagem de texto no meu celular e a li. A mulher fez algum comentário sobre as maravilhas da tecnologia da telefonia celular e eu respondi: “Sim, mas você sabia que ninguém criou este celular? Ele surgiu por acaso, a partir de vários materiais da terra!”.
Ela riu, mas entendeu a que ponto eu queria chegar com meu comentário. Ela pensava que todas os seres vivos do universo surgiram simplesmente por acaso, mas não conseguiria crer na mesma visão em relação a um simples telefone celular. Sendo assim, sou a favor do emprego de evidências, onde quer que possam ser usadas, mas sempre lembrando que os não crentes abordam cada fato a partir de pressupostos diferentes dos nossos.
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1 Para um estudo mais aprofundado do movimento da igreja emergente, recomendamos a leitura da obra: CARSON D. A. Igreja Emergente. O movimento e suas implicações. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010. [N. do T.]
2 Recomendamos ainda, do mesmo autor, o livro Ware. A. B. Teísmo aberto: a teologia de um Deus limitado. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010. [N. do T.]
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Veterano da fé - Entrevista por Carlos Fernandes na revita Cristianismo Hoje
Aos 80 anos de vida, o doutor Russell Shedd mantém-se como referência de integridade, conhecimento bíblico e vida cristãNão é muito comum um líder religioso chegar aos 80 anos em plena atividade. Mais raro ainda é ter atravessado todo este tempo mantendo um ministério de visibilidade internacional.
Agora, privilégio mesmo é poder ostentar uma reputação inabalada e manter-se como referência de conhecimento bíblico e saber teológico em idade tão avançada. Pois Russell Philip Shedd entrou para o rol dos octogenários em 10 de novembro passado com todas essas características. Missionário de origem americana, ele está radicado no Brasil desde 1962.
Neste quase meio século, tem prestado decisiva colaboração à Igreja nacional, seja através de seus livros e trabalhos de cunho teológico, seja com suas pregações, conferências e palestras.
Shedd é um teólogo com grande preparo.
Com apenas 20 anos, graduou-se no Wheaton College, nos Estados Unidos. Ali, especializou-se em hebraico e grego – línguas bíblicas cujo conhecimento considera fundamental para uma correta interpretação das Escrituras.
Em seguida, tornou-se mestre em teologia e, mais tarde, doutor em filosofia e Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, na Escócia. Mas o saber não fez dele um acadêmico arrogante, desses que enxergam a divindade com a frieza dos livros.
“O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o nosso relacionamento com Deus”, afirma. “E ainda produz muita dependência dele também”. Para manter a comunhão com Deus, a receita desse veterano da fé é simples: “Acordo todo dia antes das cinco da manhã. Assim, é possível dedicar uma hora ou mais à leitura bíblica e à oração.”
Com vinte livros publicados, Russell Shedd é muito conhecido no Brasil como fundador de Edições Vida Nova, casa publicadora especializada em obras teológicas pela qual lançou a Bíblia Vida Nova em 1977, abrindo o mercado para a popularização das versões de estudo das Escrituras Sagradas.
Foi também professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo durante 30 anos e pastor da Metropolitan Chapel, congregação fundada por ele na capital paulista, onde vive e permanece ligado à denominação Batista. Missionário jubilado, Shedd tem um padrão de vida simples, razão pela qual não aceita que o líder evangélico ostente riquezas.
“Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado”, comenta.
O senhor tem um dos mais invejáveis currículos de formação teológica entre os líderes cristãos que atuam no Brasil. É difícil conciliar tanto conhecimento com a simplicidade de um relacionamento com Deus?
Não, não acho difícil. O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o relacionamento com Deus. E produz muita dependência dele também.
De modo geral, como é o nível do conhecimento do crente brasileiro acerca de Deus e de sua Palavra?
Creio que um problema em diversas igrejas é a falta de ensinamento que explique mais detalhadamente a Bíblia toda. Por exemplo: quantos creem num inferno eterno? E muitos crentes têm uma aversão contra a soberania de Deus, tal como a Palavra ensina.
Em 1962, quando o senhor chegou ao país, o panorama religioso nacional era completamente diferente do de hoje. Faça um paralelo entre a situação espiritual que encontrou naquela época e o que se vê atualmente.
Uma das principais diferenças foi que, naquele início dos anos 1960, as igrejas tradicionais condenavam interpretações e práticas pentecostais, como dons de línguas, profecia e curas miraculosas. Tais manifestações eram consideradas quase como heréticas.
Hoje, as igrejas mais tradicionais tendem a condenar a teologia da prosperidade e os ensinamentos dos neopentecostais por falta de base bíblica. Os seminários proliferam, embora o ensino bíblico, em muitos casos, seja bastante superficial. E o interesse em missões continua sendo muito precário.
Então, apesar da haver mais seminários, o panorama do ensino teológico no Brasil não é bom?
Muitas igrejas montaram suas próprias escolas teológicas. Claramente, hoje temos muitas escolas sem professores treinados. O liberalismo teológico tem sido tirado de algumas escolas, enquanto em outras continua sendo uma opção que os alunos não têm habilidade para julgar ou avaliar.
A leitura de autores como Tillich e Bultmann pode dar a ideia de que não há muita diferença entre o liberalismo e ortodoxia. Um bom número de autores teológicos modernistas está aí, no mercado editorial. Ao mesmo tempo, há um crescente número de excelentes opções de autores que abraçam firmemente a inspiração plenária das Escrituras e a ortodoxia tradicional.
O reconhecimento dos cursos teológicos evangélicos pelo Ministério da Educação [tema tratado em reportagem nesta edição] pode ser uma solução?
Não acho que esse reconhecimento seja positivo, uma vez que os professores precisam adquirir graus de mestrado e doutorado, muitas vezes orientados por professores liberais. E a vantagem de fazer um curso reconhecido se perde na medida em que os pastores se tornam mais, digamos, profissionais.
Como um ex-editor, o que o senhor acha do segmento editorial evangélico hoje? A realidade do mercado sufoca a vocação ministerial?
Não há dúvida de que, se não existir um mercado editorial, as editoras não podem sobreviver. Claro, elas também têm de ter um caráter de missão, para poder escolher títulos que o povo precisa ler. É óbvio que há muitos títulos no mercado que acho de pouca importância, mas isso não quer dizer que não haja muitos leitores que buscam informação e encorajamento nesses livros. Existe também uma outra questão.
Algumas editoras evangélicas têm receio de publicar livros liberais, que poderiam destruir a fé dos leitores. Mas aquelas que publicam tais livros têm interesse no mercado e no aparecimento de outros autores “famosos”, mesmo que não sejam crentes evangélicos.
A popularização das Bíblias de estudo temáticas – como Bíblia da mulher, Bíblia das profecias, Bíblia dos pequeninos, Bíblia do executivo – tem beneficiado as editoras, que investem cada vez mais em novos lançamentos do gênero. Essa corrida pelo mercado é boa ou ruim?
Não acho ruim, uma vez que qualquer ajuda que o leitor recebe dessas bíblias somente poderia trazer benefícios. Não seria o caso se as notas fossem tendenciosas, oferecendo interpretações falsas.
Na diversidade de versões e edições que hoje existem da Bíblia, qual deve ser o parâmetro de escolha do crente em termos de fidedignidade?
O que importa é que a tradução escolhida não acrescente alguma ideia que o autor do original não tinha. Fidelidade na tradução sempre tem que reproduzir a ideia do original. Ela não pode incluir nem excluir algo que o texto hebraico ou grego diga.
O senhor é o presidente emérito de Edições Vida Nova, casa publicadora que ao longo dos anos tornou-se referência em obras de cunho teológico, e consultor da Shedd Publicações. Num mercado dominado por livros de cunho motivacional, a literatura teológica ainda encontra espaço?
Graças a Deus, sim. As vendas de livros publicados pelas Edições Vida Nova, bem como de Shedd Publicações, têm aumentado ano a ano, juntamente como o crescimento do público evangélico.
O que deve ser feito pelas editoras para que as obras de conhecimento teológico não sejam apenas livros de referência para professores e estudiosos, mas também tenham apelo para o crente comum, o membro de igreja?
Os editores estão de olho naquilo que vende. Eles sempre seguirão o que a pesquisa de mercado indica que será um sucesso. Mas para aproximar as obras teológicas dos leitores comuns será evidentemente necessário tornar esses livros mais populares. Por exemplo, os manuais bíblicos. Hoje existem manuais de todos os níveis.
Em seus livros O líder que Deus usa e A oração e o preparo de líderes cristãos, o senhor enfatiza a necessidade do caráter e do exemplo que o pastor deve dar às suas ovelhas. Qual sua impressão sobre a integridade pastoral hoje?
Infelizmente, temos ouvido sobre casos tristes de quedas de líderes no adultério, no nepotismo e na corrupção. Os pecados que destroem o ministério do líder muitas vezes são esquecidos pelas igrejas, que acham que o pastor é um homem de Deus e não deve ser demitido por um “tropeço”, especialmente se for um líder muito popular. A verdade é que sempre tivemos quedas de líderes durante a história, mas parece que a integridade deles hoje sofre desgaste maior.
Como evitar a excessiva vinculação da congregação a seu dirigente, de modo que a eventual queda do líder não represente um golpe inevitável na comunidade?
A queda de líderes muito proeminentes, isolados e sem o acompanhamento de bons auxiliares, torna-se um desastre para a igreja. Quando presbíteros e diáconos – ou seja, o segundo escalão na liderança da igreja – são muito responsáveis, acompanhando de perto o ministério do dirigente da congregação, é possível, em muitos casos, amenizar os efeitos de uma eventual queda.
Uma das expressões dessa concentração de poder nas mãos dos líderes é o uso de título eclesiais, como o de bispo ou apóstolo. Biblicamente, qual é a legitimação disso?
O ensinamento de nosso Senhor sobre a necessidade de humildade e disposição de servir deve nos advertir sobre o perigo de procurar alguma autoridade que deve ser unicamente de Cristo.
Não acho positiva a adoção de títulos que não sejam bíblicos. Bispo é um título bíblico, mas significa apenas “supervisor” e não alguém que domina a vida de outros líderes e pastores. Aliás, o único texto que menciona pastor humano no Novo Testamento é o de Efésios 4.11, onde o grego dá a entender que o pastor deve ser um mestre.
Já a nomenclatura apóstolo, a não ser em raros casos, refere-se às pessoas que Jesus apontou pessoalmente – razão pela qual Paulo argumenta, na sua primeira Epístola aos Coríntios, que viu o Senhor ressurreto e que Cristo apareceu para ele em último lugar. Já Filipenses 2.25 registra o termo “apóstolo” no original, fazendo referência a Epafrodito, que foi autorizado especificamente para levar os donativos da igreja de Filipos a Paulo. Logo, ele foi apóstolo da igreja de Filipos, tal como Barnabé e o próprio Saulo o foram da igreja de Antioquia.
Muitos dirigentes denominacionais justificam a própria opulência argumentando que a prosperidade financeira do líder é sinal da bênção de Deus. Isso tem base bíblica?
Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado. Jesus mandou o jovem rico vender o que ele tinha para dar o produto aos pobres. Fica evidente que o Senhor é completamente contrário a que os líderes gastem dinheiro em luxo ou desnecessariamente.
O que faz um líder cair e ficar pelo caminho, transformando seu ministério em motivo de escândalo?
Creio que a falta de cuidado em buscar uma intimidade com Deus todos os dias, evitando a aparência do mal. Acredito que quedas ocorrem quando não achamos possível cair, ou quando ficamos seguros e até orgulhosos de nossa espiritualidade.
Quais têm sido as suas fontes de sustento ao longo desses anos todos?
Nós chegamos de Portugal em 1962, sustentados pela Missão Batista Conservadora. Ao longo desse tempo, igrejas e crentes da América do Norte enviaram suas ofertas missionárias para manter nossa família [Shedd é casado com Patricia e tem cinco filhos]. Hoje, esta entidade chama-se World Venture e continua sustentando missionários em muitos paises do mundo.
O nível de sustento é determinado pela missão de acordo com o custo de vida do país no qual o missionário vive. Desde janeiro de 2008, nossos recursos vêm do plano previdenciário Social Security e de uma aposentadoria fornecida pela própria missão. Não temos sofrido nenhuma falta.
Em sua opinião, por que entidades associativas de pastores e líderes, como a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), enfrentam problemas de continuidade? Falta interesse dos pastores em participar desses movimentos associativos?
Vários motivos explicam a falta de interesse em entidades associativas. Poucos acham importante, ou de grande benefício, esse tipo de associação. A maioria dos pastores estão tão ocupados com seus programas, planos e ministérios que não acham que vale a pena contribuir e trabalhar para alguma entidade além da própria denominação.
Em quê o conhecimento das línguas bíblicas originais pode ajudar na prática da pregação?
A importância de estudo das línguas originais reside no fato de que através dele se pode explicar melhor o significado que certos termos e frases tinham quando o autor escreveu o texto bíblico.
A diferença entre as culturas bíblicas e a cultura ocidental em que vivemos hoje requer bastante cuidado para se entender a visão de mundo e os valores que regeram os escritos bíblicos. Além disso, as línguas originais ajudam chegar a conclusões mais seguras acerca do que dizem as Escrituras. Trabalhar com o texto original leva o pastor a pregar com mais cuidado e a poder afirmar: “Assim diz o Senhor”. Bons comentários também ajudam na tarefa de buscar o sentido do texto.
Essa falta de conhecimento é o motivo de tantas pregações superficiais?
Não é apenas isso. Imagino que os pastores e professores de Escola Bíblica Dominical não têm tempo ou muito interesse em examinar as Escrituras para saber de fato o que o autor queria comunicar. Preferem usar uma hermenêutica que recorre a alegorias sobre o texto bíblico. Assim, é possível dar uma interpretação muito diferente daquela que a Bíblia ensina.
Qual o tempo adequado para o preparo de uma mensagem consistente?
Varia muito. Alguns pregadores podem chegar à proposição, ou seja, ao ensinamento central do texto, com mais facilidade do que outros. Daí, procurar os argumentos dentro do texto que sustentem a proposição demora também.
O professor Karl Lachler, que lecionou muitos anos na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, dizia que uma hora de estudo por cada minuto de mensagem parece exagerado… Porém, aquele que estuda e medita para chegar ao cerne da mensagem do texto, além de buscar os argumentos dentro do trecho escolhido que comprovem essa proposição, pode gastar bastante tempo.
Infelizmente, cuidado no preparo de mensagens que alimentem o rebanho e a realização de visitas para conhecer bem as vidas dos membros e confrontar aqueles que não estão obedecendo às ordens do Senhor têm sido práticas esquecidas em muitas igrejas. Pastores santos, crentes firmes na veracidade da Bíblia, com famílias ajustadas, que buscam ao Senhor com muita oração e fé, produzem igrejas de qualidade.
A Igreja contemporânea está sempre buscando novas formas de crescer, e muitas congregações recorrem a modelos empresarias de gestão e marketing. O que o senhor pensa de incorporação de tais elementos à obra de Deus?
Não tenho nada contra o crescimento das igrejas, desde que ele não ocorra em detrimento da qualidade da formação dos membros na imagem de Cristo, conforme preconiza o texto de Romanos 8.29.
Sou muito a favor do crescimento do número dos genuinamente convertidos e nascidos de novo. O problema surge quando, no interesse de aumentar o tamanho da igreja, deixa-se de lado a santificação dos membros. Ora, sem a santificação, conforme Hebreus 12.14, ninguém verá o Senhor! Ocorre que modelos de gestão eclesiástica não têm tido muito sucesso no discipulado e na formação de homens e mulheres de Deus.
Uma igreja muito grande pode ter dificuldades em integrar os fiéis num plano de crescimento espiritual verdadeiro. Com o aumento do número dos membros, é muito fácil perder os indivíduos de vista.
Além disso, numa igreja grande os crentes muitas vezes não se sentem responsáveis para servir, contribuir, discipular ou alcançar novos convertidos, especialmente se houver na comunidade líderes pagos para cumprir esse papel. Por outro lado, uma igreja grande tem recursos pessoais e financeiros para se comprometer com grandes projetos e muitos ministérios.
Então, qual deve ser o objetivo de uma igreja?
O alvo bíblico descrito em Colossenses 1.28 – proclamação, advertência, ensino com toda sabedoria e entendimento espirituais – é o objetivo que todo pastor e igreja devem considerar como prioridade.
Na sua opinião, a mídia eletrônica é um bom púlpito?
A televisão pode, sim, ser um bom canal para se explicar o Evangelho. Mas ela tem sérias deficiências também: as pessoas não são discipuladas se não se tornam membros ativos da família de Deus. Um compromisso muito sério com uma igreja local que ensine a Palavra de Deus com autoridade é o caminho do discipulado e do crescimento espiritual.
De alto de sua experiência, o que o deixa preocupado em relação ao futuro da Igreja brasileira?
A minha preocupação se concentra na qualidade espiritual da liderança e dos membros das igrejas. É assustador ver a quantidade de divórcios que ocorrem hoje entre casais evangélicos e a falta de integridade por parte dos líderes. Também fico muito preocupado com a proliferação de ensinamentos que não são bíblicos, como a teologia da prosperidade, que nega a necessidade de o crente negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus.
Qual a sua compreensão acerca do que seja um avivamento?
O avivamento tem algumas evidências. Uma delas é quando o Senhor e sua Palavra têm mais importância do que o dinheiro ou qualquer outra coisa material. Avivamento cria arrependimento profundo pelos pecados cometidos e muita alegria no Senhor ao reconhecer seu perdão. Para uma Igreja avivada, o evangelismo se torna algo natural e as missões transculturais, uma prioridade, uma vez que Jesus mandou seus servos fazerem discípulos de todas as nações.
Logo, ao contrário do que se diz, a Igreja brasileira hoje não experimenta um avivamento?
Não acredito que o que acontece hoje, com o rápido crescimento da Igreja, seja um avivamento de verdade. O que eu vejo é que falta temor do Senhor, arrependimento profundo e interesse por missões.
O senhor é filho de missionários americanos que aqui chegaram na primeira metade do século passado, época em que obreiros estrangeiros tinham grande influência no Brasil. Hoje em dia, sendo o país uma potência evangélica, ainda há espaço para eles?
De fato, a influência de missionários estrangeiros aqui é cada vez menor. Mas ainda há áreas em que obreiros vindos de fora poderiam ser úteis, como no preparo para as missões transculturais. O treinamento em determinadas áreas, como antropologia, linguística e informação acerca de povos não alcançados continua sendo uma área em que os missionários estrangeiros podem ser muito úteis à Igreja brasileira.
Pode-se dizer que já existe uma teologia genuinamente nacional?
Creio que teologia nacional, brasileira, seria aquela alicerçada em nossa história e cultura. Não acho que poderia encontrar uma visão como essa bem divulgada no Brasil. Ainda há muita dependência dos livros estrangeiros e de modelos de igrejas que tendem a copiar o que se faz em outros países.
Do que o senhor sente falta na Igreja de hoje e que já viu em outros tempos?
De um lado, mais ensino da Palavra, mais preocupação com santificação e mais investimento em missões transculturais. De outro, uma Escola Dominical mais forte, uma hinologia alicerçada na teologia bíblica e mais livros de ensino sério.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Perfil do Pr. Paulo Romeiro
Bacharel em Jornalismo pela Universidade Brás Cubas de Mogi das Cruzes, SP, (1978). Em janeiro de 1979, cursou a Escola de Ministério, sob o patrocínio do World Evangelism, com sede em San Diego, Califórnia, EUA.
O curso reuniu mais de 500 pessoas de 37 países diferentes. A possibilidade de troca de informações foi enorme e constante. Conheceu muitos preletores diferentes, desde a ala evangélica conservadora norte americana até aos carismáticos mais extremados.
Ainda em 1979, nos EUA, matriculou-se no programa de Pós-Graduação de Mestrado em Teologia pela Melodyland School of Theology (MST), uma escola teológica de linha carismática, concluindo o curso em 1982.
pr.paulo@ictrindade.com.br
Também cursou o Gordon-Conwell Theological Seminary em Boston, Massachusetts, um seminário com mais de 100 anos de tradição, onde concluiu o Mestrado em Teologia, em 1987. Em 11 de abril de 1984, foi ordenado pastor pelo Southern California District Council of the Assemblies of God (Concílio Distrital das Assembléias de Deus do Sudeste da Califórnia), EUA.
Desenvolveu trabalhos evangelísticos em diferentes países como Nigéria, México, Guatemala, El Salvador e Estados Unidos e em vários países europeus. Durante os sete anos que permaneceu nos Estados Unidos, estudou apologética sob a égide do Dr. Walter Martin, renomado apologeta e autor da obra The Kingdom of the Cults (O Império das Seitas), um clássico sobre os novos movimentos religiosos. O Dr. Walter Martin foi também o fundador do Christian Research Institute (Instituto Cristão de Pesquisas) nos Estados Unidos.
A partir de 1989 começou a pesquisar um movimento importado dos Estados Unidos denominado Teologia da Prosperidade, que se espalhava rapidamente pelo Brasil. Em resposta a esse fenômeno, surgiu o seu primeiro livro intitulado SuperCrentes: O evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os Profetas da Prosperidade, publicado pela Editora Mundo Cristão em 1993. Este livro tornou-se um best-seller no mundo evangélico.
Logo em seguida, escreveu Evangélicos em Crise: Decadência Doutrinária na Igreja Brasileira, publicado pela mesma editora, em 1995. Nele, tratou de várias questões que afetavam e continuam afetando o mundo evangélico, tais como batalha espiritual, a demonologia
neopentecostal, a problemática dos milagres, o estabelecimento de datas para o retorno de Cristo, o envolvimento dos evangélicos com a política partidária e questões éticas. Grande parte da informação publicada foi resultado de constantes pesquisas de campo.
Em 2005 publicou Decepcionados Com a Graça: Esperanças e Frustrações no Brasil Neopentecostal, também pela Editora Mundo Cristão. Nesta obra aborda com detalhes, o processo que se inicia na atração de fiéis e culmina em decepções que, não raro, afugentam definitivamente milhares de pessoas das Igrejas.
Posiciona historicamente este fenômeno e propõe um modelo eclesiológico que resgate a esperança e o sentido bíblico da graça de Deus, fortes pilares da fé cristã. Escreveu Desmascarando as Seitas, em parceria com Natanael Rinaldi. O livro foi publicado pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus) e trata dos novos movimentos religiosos como Testemunhas de Jeová, Mormonismo, Seicho-no-Iê, Igreja Messiânica Mundial e outros.
Como conseqüência da publicação dessas obras, houve uma grande demanda por conferências, pois as igrejas e instituições teológicas procuravam mais informações. Assim, viajou intensamente, realizando seminários, participando de programas de rádio e TV, dando entrevistas para jornais e revistas sobre tais assuntos.
Em 1997, fundou uma organização denominada AGIR (Agência de Informações Religiosas) a fim de dar prosseguimento ao trabalho de pesquisa sobre religiões e crenças em geral. Em março de 2004, recebeu o título de Doutor (Ph.D) em Ciências da Religião pela Umesp (Universidade Metodista de São Paulo).
É o fundador e pastor presidente da Igreja Cristã da Trindade, localizada na Avenida Jabaquara, no 2461, junto da estação Metrô São Judas, na cidade de São Paulo. Tem realizado simpósios sobre religiões e discernimento bíblico em igrejas e instituições teológicas desde 1983, no Brasil e no exterior, além de seminários para líderes de diferentes denominações sobre discernimento doutrinário.
Colabora também com a mídia secular, tanto nacional quanto internacional (Rádio e TV BBC de Londres, Revista Povos, entre várias) fornecendo informações para os principais orgãos da mídia escrita sobre os novos movimentos religiosos. Muitos de seus artigos já foram publicados em revistas e periódicos evangélicos.
É diretor e apresentador do programa "Um Toque de Deus" na Rádio Musical FM 105,7, na capital, São Paulo, juntamente com outros pastores da Igreja Cristã da Trindade e colaboradores da AGIR.
É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Casado com Simone, tem dois fillhos: Alyne e Adryel.